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Rastreamento do câncer colorretal é negligenciado no Brasil

Notícias Quinta, 30 Março 2017 13:31
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Março é o mês de conscientização sobre o câncer colorretal. Enquanto alguns veículos têm repercutido uma tendência de aumento de incidência entre pacientes jovens nos Estados Unidos, a Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC) alerta que o rastreamento assintomático e também a investigação dos sintomas na população com mais de 50 anos são negligenciados em nosso país.

O Instituto Nacional de Câncer (Inca) estimava 16,6 mil casos novos de câncer de cólon e reto em homens e 17,6 mil em mulheres em 2016. Sem considerar os tumores de pele não melanoma, o câncer colorretal é o segundo mais frequente em pacientes de ambos os sexos no Sudeste, a região mais populosa do Brasil. Nas demais, aparece como o terceiro ou quarto tipo de câncer mais incidente.

Apesar desses números, não é feito o rastreamento assintomático de câncer colorretal no Sistema Único de Saúde (SUS). Atualmente, este tipo de política pública se restringe ao câncer de mama e ao de colo do útero. A falta de acesso ocorre também no sistema suplementar, onde os exames para detecção precoce são cobertos mas não alcançam a população-alvo de forma adequada. “O screening de câncer colorretal, o rastreamento da doença assintomática, é negligenciado na grande maioria da população. Mesmo naqueles 20% que têm plano de saúde, é incomum encontrar alguém que fez colonoscopia aos 50 anos porque o médico solicitou”, afirma o Dr. Gustavo Fernandes, presidente da SBOC.

Um dos motivos que ajudam a explicar esta falta de cuidado é a complexidade da colonoscopia, procedimento invasivo, que requer preparo intestinal e sedação, ocorre pela via retal e tem custo elevado. Por outro lado, permite a visualização de todo o intestino grosso e a remoção das lesões consideradas suspeitas durante o próprio exame.

Dados do Registro Hospitalar de Câncer, coordenado pela Fundação Oncocentro de São Paulo, mostram que os novos casos de câncer colorretal entre os moradores da capital paulista, em 2009 e 2010, tiveram diagnóstico tardio. Os casos com estadiamento III ou IV da classificação TNM, aqueles com pior prognóstico, superaram 51% do total. “Nem todo mundo vê os pacientes com câncer sofrerem. Eu vejo. Quando o paciente chega [ao consultório], tem um bom estado geral, plano de saúde, histórico familiar, deveria ter feito o exame e não fez, eu fico muito aborrecido, porque o indivíduo poderia estar curado; poderia ter tirado um pólipo durante uma colonoscopia e ter resolvido”, indigna-se o Dr. Gustavo.

Quanto ao número de mortes causadas pelo câncer colorretal, ocorreram 15.415 no Brasil em 2013, sendo 7.387 homens e 8.024 mulheres, conforme informação do Inca. A mortalidade vem crescendo no país: foram 4,51 a cada 100 mil habitantes de 1985 a 1994; 5,53 de 1995 a 2004; e 6,73 de 2005 a 2014. O aumento é de 50% em 30 anos. De acordo com o presidente da SBOC, as chances de cura são enormes quando a doença é diagnosticada precocemente.

A prevenção primária do câncer colorretal está associada a uma dieta rica em fibras, frutas, verduras, cereais e peixes, e com menos carnes vermelhas e processadas e gordura de origem animal. Também são aspectos importantes praticar atividade física regularmente, evitar o excesso de peso, limitar o consumo de álcool e não fumar.

Questão de saúde pública

Segundo publicação da Prefeitura de São Paulo, o câncer de cólon e reto preenche os requisitos para um rastreamento populacional: caracteriza-se como problema de saúde pública; existe um método não invasivo, de baixo custo e aceitável para aplicação em nível populacional, a pesquisa de sangue oculto nas fezes (PSOF); a detecção precoce e o tratamento das lesões precursoras ou do tumor inicial levam à redução da prevalência e mortalidade; e há terapias efetivas contra a doença.

A União Europeia recomenda, desde 2003, que seus estados membros adotem o rastreamento populacional para o câncer colorretal, com a realização de PSOF na população assintomática entre 50 e 74 anos, seguida de colonoscopia nos casos positivos. Ainda conforme a Prefeitura de São Paulo, diferentes estudos internacionais apontam para uma redução de óbitos por câncer de cólon e reto de 14% a 18% com exames bianuais e de 33% quando o rastreamento se faz anualmente.

Estudo brasileiro com a população de Santa Cruz das Palmeiras, no interior de São Paulo, constatou incidência 16% menor de câncer colorretal no grupo do rastreamento no período de 5 a 7 anos após o término do programa em comparação ao índice registrado antes da campanha.

Outra iniciativa neste sentido ocorre na zona leste da capital paulista desde junho de 2016. A Universidade de São Paulo, a Atenção Primária à Saúde Santa Marcelina, a Fundação Oncocentro de São Paulo, o Hospital das Clínicas da FMUSP e o Instituto do Câncer do Estado de São Paulo devem recrutar 12 mil pessoas de 50 a 75 anos. O projeto busca avaliar a viabilidade da implantação do rastreamento de câncer colorretal como política pública do SUS de São Paulo. O estudo medirá a taxa de adesão das pessoas às técnicas de rastreamento e a proporção de casos positivos para dimensionar a estrutura secundária e a rede de serviços necessária à continuidade do tratamento desses pacientes.

Segundo o Dr. Ulysses Ribeiro, cirurgião do aparelho digestivo e pesquisador executante do projeto, até março foram feitos 6 mil testes de sangue oculto nas fezes. Os pacientes com resultado positivo receberam encaminhamento para a colonoscopia. Em 70% dos 140 exames realizados foram encontrados pólipos ou tumores. O diagnóstico de câncer colorretal ocorreu em 14 casos. Nos demais, a grande maioria dos pólipos foi removida ou tratada. “Nosso objetivo é concluir o projeto até o fim de 2017 e apresentar os dados completos de forma a embasar a proposta de tornar o rastreamento uma política pública permanente”, explica o especialista.

O Dr. Gustavo Fernandes adverte que, hoje, o negligenciamento tanto no rastreamento do paciente assintomático quanto na investigação dos sintomas leva a diagnósticos tardios e muito sofrimento. “O indivíduo passa dois, três anos evacuando sangue até conseguir fazer uma colonoscopia ou até o médico pedir e dizer que não é hemorroida”, relata.

“É preciso que as pessoas abram um pouco mais a mente para fazer a colonoscopia quando é necessário. Nós, médicos, devemos ser mais desconfiados quando o paciente está em bom estado geral e solicitar o exame do paciente assintomático, o que também salva vidas”, ressalta o presidente da SBOC.

Aumento em pacientes jovens

Nos Estados Unidos, onde existe maior acesso aos exames preventivos, a incidência de câncer colorretal vem declinando nas pessoas acima de 50 anos. Em contrapartida, estudo publicado em fevereiro no Journal of the National Cancer Institute revelou que, de cada dez pessoas que recebem o diagnóstico de câncer colorretal, três têm menos de 55 anos. Entre 1974 e 2013, as taxas de câncer retal aumentaram 3,2% ao ano na faixa etária de 20 a 29 anos. Desde 1980, subiram 3,2% ao ano em pessoas de 30 a 39 anos. A partir da década de 1990, cresceram 2,3% ao ano em adultos de 40 a 54 anos.

Os autores da pesquisa apontam que quem nasceu em 1990 tem o dobro do risco de câncer de cólon e o quádruplo do risco de câncer retal em comparação com alguém nascido em 1950. Embora os pesquisadores afirmem que o risco absoluto ainda seja pequeno nos jovens, acreditam que os nascidos nos anos 80 e 90 carregarão o risco para a frente com eles à medida que envelhecerem.

O Dr. Gustavo Fernandes não vê motivos para alarde. “Até agora, existe uma percepção de que os casos estão aumentando entre jovens. As estatísticas são relativamente pobres ainda. Não há nenhuma providência a ser tomada por enquanto”, diz. “Temos uma missão muito importante com as pessoas acima de 50 anos antes de discutir, enquanto sociedade brasileira, o screening para os mais jovens”, pondera o presidente da SBOC.

Contudo, o oncologista lembra que qualquer pessoa pode ter câncer. “Sangue nas fezes, constipação, perda de peso e diarreia crônica são sintomas sérios que necessitam de investigação em qualquer idade para que o diagnóstico seja precoce”, finaliza.

Última modificação em Terça, 18 Abril 2017 17:23

1 Comentário

  • Link do comentário Suely Pletz Neder Quinta, 30 Março 2017 19:31 postado por Suely Pletz Neder

    Obrigada, dr. GUSTAVO FERNANDES, graças ao sr. E ao Instituto do Câncer de São Paulo, estou curada de um adenocarcinoma do cólon ascendente, estadio III, só diagnosticado em colonoscopia de controle de pólipos intestinais. Depois de cirurgia de retirada de parte do intestino e doze sessões de quimioterapia, já estou com seis anos de sobrevida. Aconselho a todos que se submetam à colonoscopia como exame preventivo desse Câncer à partir dos 50 anos de idade. Devo isso à minha cura apesar da metástase .

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